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Voto evangélico: como Lula e Flávio buscam conquistar os fiéis

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Paulo Pinto/Agência Brasil
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Brasília e São Paulo – Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) adotam estratégias distintas para atrair o voto dos evangélicos, especialmente entre os pentecostais. Enquanto Flávio, favorito no segmento, procura pastores de grandes denominações, Lula busca igrejas menores e independentes, além de mirar os ‘desigrejados’ – aqueles que se identificam com a religião, mas deixaram a igreja.

Levantamento do Broadcast Político, a partir das agendas divulgadas pelos candidatos em 2026, mostra que Flávio esteve presente em mais encontros com lideranças de grandes igrejas do que Lula. O senador do PL inaugurou sua pré-candidatura à Presidência em sua igreja, a apostólica Comunidade das Nações, em Brasília, do bispo JB Carvalho e da bispa Dirce.

Já no réveillon de 2026, Flávio iniciou o ano em um culto da Igreja Batista da Lagoinha, na Flórida, nos Estados Unidos. Surgida em Belo Horizonte (MG) há mais de 60 anos, tem como presidente o pastor André Valadão, e dela veio a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). A Lagoinha declara ter quase 700 unidades, com mais de 330 mil membros pelo mundo.

Em 6 de abril, Flávio se reuniu com o pastor José Wellington Bezerra, presidente da Assembleia de Deus Ministério do Belém. A igreja, de 1911, diz ter 500 mil membros na Grande São Paulo. Flávio também procurou outra forte corrente, a Assembleia de Deus do Ministério de Madureira, que diz ter 2,5 milhões de fiéis, presidida pelo bispo Abner de Cássio Ferreira. Entre abril e maio, o partido de Flávio obteve a filiação do deputado federal Cezinha de Madureira, ligado ao ministério.

Ao Broadcast Político, o sociólogo Paul Freston aponta os Ministérios do Belém e de Madureira como as “tendências mais fortes em organização, número e atuação política” dentro da igreja evangélica. Já a antropóloga Jamille Narciso Reis destaca que, enquanto o Ministério do Belém tem uma atuação mais capilarizada no interior do Brasil, o Ministério de Madureira é mais internacionalizado.

No fim de dezembro, quando Flávio já era pré-candidato a presidente, Lula recebeu membros do Ministério de Madureira e de igrejas menores e independentes, como a Igreja Batista Soul, do pastor Kleber Lucas, e a Nossa Igreja Brasileira, do pastor Marco Davi Oliveira, ambas do Rio de Janeiro. A solenidade também contou com a cantora Nívea Souza, da Assembleia de Deus dos Últimos Dias, surgida em 1990, e que não pertence aos ministérios do Belém e de Madureira.

Na disputa pelos evangélicos, os candidatos demonstram preocupação especial com os pentecostais. Isso se deve à expansão do segmento.

Antes do pentecostalismo, predominavam no Brasil, desde o século 19, as igrejas protestantes históricas, como as presbiterianas, metodistas, batistas e luteranas. Segundo estudiosos, as protestantes históricas costumam concentrar mais fiéis de classe média e alta e ter uma formação intelectualizada, com pregações mais filosóficas. Já os pentecostais chegaram ao Brasil no início do século 20, com as Assembleias de Deus, sob esforços de missionários dos Estados Unidos.

Para o cientista político Victor Araújo, enquanto os protestantes históricos tendem a acreditar na autodeterminação da vontade de Deus, os pentecostais têm um apelo segundo o qual, se o fiel clamar o suficiente, é possível conquistar um milagre. “É por isso que o pentecostalismo faz mais sucesso no contexto do Brasil, de desigualdade e de pobreza.”

Vitória em Cristo e Renascer em Cristo

De 1959, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), que diz ter mais de 200 mil membros, é outra peça-chave. Presidida pelo pastor Silas Malafaia e com novo nome desde 2010, a marca da igreja não é o número de fiéis, considera a antropóloga Raquel Sant’ana, mas uma “enorme visibilidade por outros meios“, como o televangelismo e a presença na Marcha para Jesus do Rio de Janeiro, um dos maiores eventos evangélicos do ano.

Malafaia esteve presente no ato do Dia da Independência ao lado de Flávio, na Avenida Paulista. O pastor transmitiu o evento em seu canal no YouTube, que tem quase 2 milhões de inscritos. Ele discursou por 15 minutos com fortes críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, após a revelação de mensagens trocadas com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Em maio, Flávio também posou ao lado do apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Renascer em Cristo, durante a Marcha para Jesus de São Paulo. Fundada em 1986, a igreja é organizadora da marcha paulista. Estevam declarou apoio a Flávio em agosto e tem feito campanha nas redes sociais. Sua esposa, a bispa Sonia Hernandes, é uma das únicas lideranças femininas das grandes igrejas.

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Flávio, Universal e Mundial

Fundada em 1977, no Rio de Janeiro, a Igreja Universal do Reino de Deus diz já ter ultrapassado 10 milhões de fiéis pelo mundo, com presença em 135 países. Fundada pelo bispo Edir Macedo, é especialmente conhecida por deter a TV Record, que exibe cultos, programas religiosos e superproduções dramatúrgicas com tramas bíblicas.

Na política, o Partido Republicanos é marcado pela Universal, com deputados como Gilberto Abramo (MG), Marcelo Crivella (RJ), Rosangela Gomes (RJ), além do próprio presidente, Marcos Pereira, que é bispo licenciado. Flávio foi do Republicanos entre 2019 e 2021, depois de ter deixado o PSL.

O Republicanos frustrou Flávio e anunciou neutralidade nacional, mas Pereira e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), apoiam o candidato do PL. Figuras como Abramo, Crivella e Rosangela, embora tenham eleitores na raia do bolsonarismo, não ostentam Flávio em suas campanhas digitais. Assim como o Republicanos, a Universal também não fez aceno direto a Flávio.

A relação é mais próxima com a Igreja Mundial, fundada em 1998, em Sorocaba (SP), e que também detém uma emissora de TV, a Rede Mundial, com transmissão de cultos. A reportagem não encontrou nas redes da Mundial a quantidade autodeclarada de fiéis. Em 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eram 315 mil. O candidato do PL já fez pelo menos duas agendas com a Igreja Mundial neste ano: uma em 9 de agosto e outra em 7 de setembro.

Lula e a estratégia “pelas beiradas”

Sem grandes lideranças, o PT disputa igrejas dispersas. Em 8 de junho, o PT realizou um encontro de evangélicos do partido, sem a participação de Lula.

O encontro reuniu parlamentares e lideranças religiosas progressistas, como o deputado Henrique Vieira (PSOL-RJ), pastor da Igreja Batista do Caminho, que se define como antifundamentalista; Fillipe Gibran, pastor da Comuna do Reino, em Belo Horizonte (MG); Caio Fábio, ligado ao Movimento Caminho da Graça, em Brasília; e a vereadora Néia Marques (PT), de Belém, diaconisa de uma igreja pentecostal.

Em julho, petistas se reuniram com lideranças no Rio de Janeiro, em encontro promovido pelo Conselho Nacional das Comunidades Cristãs Evangélicas (Conce), uma associação apartidária.

No lançamento da campanha, em agosto, em São Bernardo do Campo (SP), o comício de Lula apresentou o jingle gospel “Tapete Vermelho”, cantado pela primeira-dama Janja da Silva e pelo pastor Kleber Lucas, da Igreja Batista Soul. A performance se repetiu no comício de Bangu, no Rio de Janeiro.

Em 24 de agosto, a campanha lançou o Comitê Evangélicos com Lula, em uma reunião virtual. O objetivo é replicar a mobilização nos Estados e municípios, para que os evangélicos que apoiam o petista criem materiais e conversem com fiéis indecisos.

Esse movimento encontrou respaldo em alguns grupos. Em agosto, a Associação das Igrejas e Templos Evangélicos de Médio e Pequeno Portes do Estado do Rio de Janeiro (AITEMPERJ), a Associação de Mulheres Evangélicas com Cristo e pela Vida (Amevida) e o Movimento Jesus Libertador (MJL) assinaram uma carta de apoio a Lula. Em 8 de setembro, o Movimento Evangélico Progressista (MEP), organização de 1990, também publicou um manifesto em prol do candidato do PT.

(Por Victor Ohana e Gabriel Gonçalves, especial para a Broadcast)

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