R$15. Essa é a quantia que o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, oferece para limparem a cela G, onde está preso no Complexo de Gericinó, em Bangu, Zona Norte da cidade, conforme nota na coluna de Lauro Jardim publicada pelo jornal O Globo.
O político, acusado de ter desviado mais de R$200 milhões dos cofres públicos a partir de contratos fraudulentos com empreiteiras, está preso com a mulher Adriana Ancelmo desde novembro passado, após investigações da operação Calicute, um dos braços da Lava-Jato. Cabral, que agora divide a penitenciária com Eike Batista e outros milionários, oferece o pagamento para outro detento, que tem realizado os serviços periodicamente. O quarto, que partilha com outros detidos, tem 16 m², duas beliches e um banheiro.
Para a diarista Simone Maria, de 34 anos, o pagamento oferecido pelo ex-governador pouco importa. A moradora do centro é diarista há 8 anos na mesma residência em Laranjeiras e cobra R$150 pelo serviço de oito horas. Ela diz que a média entre as colegas pode oscilar perto desse valor, mas que já não se encontram profissionais que façam o serviço por menos de R$100. Ainda sim, afirma, mesmo que Cabral a pagasse dez vezes a remuneração que recebe normalmente, não aceitaria o trabalho por questão de princípios.
— Por R$15 eu não faço nem o cafezinho, mas dá pra comprar veneno de rato. Ele tem que pagar pelo que fez, a gente não pode ajudar de nenhuma forma. Um homem que roubou tanto e agora não tem dinheiro nem para pagar direito um serviço de limpeza. — diz com ironia.

Já Rosângela Pereira, empregada doméstica de 63 anos, há 20 no Leblon, trabalha três dias na semana em um mesmo local, e por isso possui vínculo empregatício, recebendo salário. Depois de anos de trabalho, conseguiu comprar a casa própria em Japeri e criar as duas filhas, o que conta com orgulho. Quando o assunto é o ex-governador, porém, a senhora afirma ter aversão pessoal a ele e sua mulher. Ela o culpa pela crise que vive o estado e vê um insulto na quantia paga ao colega de penitenciária de Cabral.
— Isso envergonha demais a gente. Tenho nojo dele e da mulher, ele é o grande responsável por toda essa crise e eu não faria essa faxina jamais. Sei que é um outro preso como ele que faz, mas mesmo assim, né. — afirma
Seguindo pela Central do Brasil para casa, em Mesquita, após 12 dias trabalhando em Minas Gerais, a doméstica Maria Catarina é outra profissional do ramo que não esconde a indignação.
— Ele é que tinha de limpar! — diz em tom de brincadeira.
A senhora de 67 anos diz não concordar com qualquer tipo de regalias ao ex-governador. Depois de 15 anos trabalhando no setor, ela conta jamais ter ouvido falar de qualquer colega que tenha aceitado realizar o mínimo serviço pela quantia proposta.
— Isso não existe! Acho que a prisão tem de ser de acordo com o que a pessoa fez de errado, e, no caso dele, é tanta coisa que não merece nada. Para aceitar R$15, a pessoa tem que estar muito necessitada mesmo— completa.
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