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Manifestação. Pequeno grupo esteve na porta da igreja no horário do culto e levou cartazes com dizeres contra o preconceito

Eles iam chegando de mansinho, um a um, ou em duplas, e, ao se aproximarem da igreja Batista Getsêmani, no bairro Jardim Atlântico, na região da Pampulha, logo se reconheciam. Além de parecerem estar perdidos naquela região – a maioria veio da Centro-Sul, de carro, táxi e ônibus –, não pareciam interessados no culto da noite de quinta-feira. “Vocês vieram para o ato contra a palestra (relacionada à homossexualidade)?”, perguntavam uns aos outros. Até as 20h, meia hora depois do horário combinado pelo Facebook, eles não passavam de oito pessoas. Alguns, então, desistiram e se foram. Em seguida, partiram as quatro viaturas policiais que estavam a postos para qualquer confusão. Logo depois, chegou uma turma de cinco, mais dispostos, com cartazes com dizeres como “Tire seu preconceito do caminho que eu quero passar com o meu amor”.

As pessoas foram ao local para protestar contra a palestra que aconteceria naquela noite, mas acabou adiada em razão da enorme repercussão negativa que gerou nas redes sociais. A causa da polêmica foi o tema anunciado na terça-feira: “Como prevenir e reverter a homossexualidade”. No dia seguinte, o tema mudou para “Orientando pais sobre a sexualidade dos filhos”, o que não foi suficiente para acalmar as reações. O debate deixou a tela do computador e aconteceu na porta da igreja, antes que terminasse o culto.

Cerca de dez jovens pegaram seus cartazes e se aproximaram dos homens de paletó preto na entrada da igreja. “A gente veio aqui para entender o que vocês pensam. Quando a gente conversa, a gente consegue estabelecer aprendizado mútuo”, iniciou Henrique Neder, 26. “Qual seria o fundamento dessa palestra, porque é uma questão muito séria, não é simplesmente dar uma palestra e desrespeitar os seres humanos”, completou Gabriele Kristine, 21.

“Está acontecendo aqui o culto, tem uma pregação e uma liturgia, vocês já foram?”, respondeu um rapaz da igreja, identificado apenas como Ricardo. “O diálogo pode acontecer, no século que a gente vive hoje, nessa pós-modernidade, se nós não dialogarmos, não chegaremos a consenso”, prosseguiu. “Temos a oportunidade de compreender o ser humano, o que até hoje ninguém conseguiu fazer”, falou Ricardo, sendo interpelado por um dos garotos do protesto, que de início parecia tímido: “O ser humano é essa coisa linda, diversa, cada um na sua diversidade”.

Confronto. A pastora da igreja, elegante, de vestido preto e branco no joelho, salto médio, cabelos pretos longos encaracolados, se aproximou e interrompeu a discussão. “Eu sou a pastora Joelma, dá para notar que eu sou maluca? Não? Glória a Deus!”, brincou. “Queridos, vocês são muito bem-vindos, a igreja está aberta. Meu marido Clóvis (também pastor da igreja) se desculpou naquilo que diz respeito aos nossos erros, aos mal-entendidos. Eu trabalho na área da beleza, não tem como eu ter preconceito, a maioria dos meus colegas é de homossexuais”, disse.

Ao ser cortada pelo grupo que dizia que “na teoria, é fácil falar”, Joelma foi pragmática: “Não vamos debater porque não vale a pena, vocês têm a conclusão de vocês, nós temos as nossas. Me confronto até hoje a respeito das minhas vontades, que nem sempre são as vontades que estão na palavra (de Deus)”. E Neder tomou a palavra: “Entendo que esse não é o momento, vocês estão no culto, mas é possível dialogar? Viemos com a ideia do amor, e vocês também. Teoricamente, estamos falando a mesma linguagem”.

“Deus é amor”, argumentou Joelma. “Mas não podemos negar essa realidade, tem muita gente que suicida por esse tipo de ideologia, de incentivo da igreja”, defendeu Neder. “A igreja não abriu nenhum momento de diálogo, não porque ela não queira, mas porque isso não foi preparado, toma tempo”, explicou a pastora. A partir dali, a palavra tão citada – diálogo – mostrava que não ia conseguir ultrapassar as barreiras das ideologias nem do espaço entre a igreja e a calçada. Eles diziam nas entrelinhas que não falariam a mesma língua.

Desculpas. A pastora fez o mea-culpa pelo banner que gerou a polêmica: “Muitas vezes, as expressões são malcolocadas, nisso nós pedimos desculpas a vocês. Erramos, era um assunto para dentro igreja, mas se abriu de uma forma completamente errada. Nossa intenção era falar com as famílias, 99% aqui (na igreja) são famílias. Sexualidade não é só homossexualidade, muitos pais não conseguem explicar para os filhos o que é sexo”.

Antes que fosse interrompida, Joelma emendou: “A palavra de Deus diz: ensina a teu filho o caminho que deve andar e, mesmo depois de velho, ele não vai se esquecer”.

Vazio. Pessoas revoltadas com a iniciativa da igreja chegaram a marcar dois eventos no Facebook para protestar no local, com mais de mil confirmações, mas, como a palestra foi adiada, muitos não foram.

FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK
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Polêmica começou com a divulgação da palestra na terça-feira

ACALORADA

Conversa entre jovens dos dois lados

Por volta das 21h, no decorrer do debate entre homossexuais e evangélicos, chegou mais gente para o protesto, somando cerca de 20 pessoas na porta da igreja. O culto acabaria às 21h30. Os jovens que saíram do louvor para tentarem diálogo do lado de fora eram chamados por membros da igreja para entrarem, quando a discussão estava ficando acalorada. “Gustavo, meu filho, você tem que ajudar a arrumar a igreja”, disse um homem na terceira vez que o chamava. Só havia restado ele, dos cinco que iniciaram a conversa com os gays.

“Eu acredito que Deus cura, não estou dizendo que cura ‘homossexualismo’ ou mentira, pelo amor de Deus, estou dizendo que Deus cura o coração”, pregava Gustavo, que foi rapidamente corrigido quanto ao termo “homossexualismo”: “é homossexualidade, homossexualismo remete a doença”, explicou Eduardo Leite, 19, fazendo com que Gustavo hesitasse toda hora que pronunciava “homossexual”. “Perdão, perdão”, dizia.

Igreja evita render discussão e se exime de culpa

Paralela à discussão, a filha da pastora chamou um dos meninos do protesto de lado e tentou explicar a confusão gerada pelo polêmico cartaz da palestra. Segundo ela, a igreja não se defendeu para não render o assunto. “Quanto mais falar, pior fica”, disse. O seu pai, pastor da unidade, não teria tido oportunidade de falar, apenas a Igreja Getsêmani Sede divulgou nota oficial no Facebook adiando o evento.

“Foi ela (Isildinha Muradas) que mandou esse tema, meu pai perguntou se isso não ia gerar polêmica, mas era sobre isso que ela gostaria de falar. Vai contrariar uma palestrante? Não vai”, comentou a filha do pastor mostrando um print de mensagens trocadas com Isildinha. À reportagem, a palestrante havia afirmado que a igreja teria mudado o cartaz da palestra. 

JOANA SUAREZ/O TEMPO