Por Patrícia Esteves
A morte traz dores que vão além da despedida. Entre as decisões difíceis que recaem sobre a família está a escolha do que será feito com o corpo: sepultar ou cremar? Essa pergunta, embora prática, carrega camadas de simbolismo, tradição cristã e até posicionamentos teológicos divergentes, especialmente em um cenário onde o custo do sepultamento se torna cada vez mais inacessível.
Durante séculos, o sepultamento foi a prática natural entre os cristãos. O corpo, segundo a tradição, é tratado com reverência porque foi criado por Deus, habitação do Espírito e promessa da ressurreição. Em contrapartida, a cremação, antes rara no Ocidente cristão, tem se tornado cada vez mais comum, impulsionada por razões econômicas, culturais e legais.
Entre o símbolo e a liberdade pessoal
Para o pastor e teólogo Augustus Nicodemus, em reflexão em seu canal no Youtube “Em Poucas Palavras”, a tradição cristã do sepultamento tem raízes no simbolismo da ressurreição. “O corpo é visto como uma semente que é colocada no solo, aguardando o dia da ressurreição, quando então virá na forma de um corpo glorioso, distinto do corpo material e físico que foi sepultado”, afirma.
Nicodemus ressalta que a Bíblia não traz um mandamento direto sobre o assunto, mas reconhece que “o normal, embora isso não seja uma determinação bíblica, é geralmente o sepultamento”. Ele também lembra que o próprio Jesus foi sepultado, assim como Abraão, Isaac e Jacó, o que reforça o padrão encontrado nas Escrituras.
Por outro lado, o teólogo reconhece que a cremação não contradiz nenhuma ordem divina explícita. “Alguns dizem: como é que Deus vai ressuscitar um corpo que foi completamente destruído pela cremação? Ora, a mesma coisa pode-se dizer do sepultamento. Corpos que foram sepultados, por exemplo o corpo de Abraão, não existem mais”, explica.
Para ele, a decisão é pessoal e deve ser respeitada. “Não existe nada na Bíblia que ordene ou proíba tanto o sepultamento como cremação. Creio que fica à liberdade da pessoa fazer isso”, diz.
O corpo como templo e testemunho
O pastor e escritor batista John Piper, fundador do ministério Desiring God, propõe uma reflexão mais ampla sobre o valor simbólico do corpo humano e seu papel no testemunho cristão. Para ele, “a simplicidade centrada em Deus, enraizada no Evangelho e que exalta a Cristo deve ser a norma” nos funerais.
Piper sugere que as igrejas criem fundos de compaixão para custear funerais simples, evitando que a cremação se torne a opção preferida apenas por ser mais acessível. Segundo ele, “quantos evangélicos escolheriam a cremação se ela custasse tanto ou mais do que um sepultamento simples e tradicional? Muito poucos”.
Citando 1 Coríntios 6:19-20, ele destaca que o corpo “é templo do Espírito Santo” e foi comprado “por bom preço”. Por isso, deve ser tratado com dignidade. “Nosso corpo, morada de Deus. Nosso corpo, compra de Deus. Nosso corpo, posse de Deus. Nosso corpo, glória de Deus”, enfatiza.
Para Piper, sepultar o corpo é mais do que um costume. É um ato simbólico de fé na ressurreição. “O sepultamento – semear a semente do corpo – é a imagem bíblica da crença na ressurreição do corpo”, pondera. Ele ainda recorda que os primeiros cemitérios cristãos, chamados coemeteria, significavam “lugares de dormir”, remetendo à esperança de um despertar na vinda de Cristo.
Fique por dentro do que publicamos sobre a AD Timóteo.
A cremação e seus desafios simbólicos
Piper também chama atenção para o que considera uma contradição simbólica: o uso do fogo no trato com o corpo humano. Segundo ele, nas Escrituras, o fogo aparece frequentemente associado ao juízo e à punição. “O uso do fogo para consumir o corpo humano na Terra era visto como um sinal de desprezo. Não se tratava de um tratamento glorioso para com o corpo”, explica, citando o episódio de Acã, que foi apedrejado e queimado por ter traído Israel (Josué 7:25).
Ele ainda aponta que o fogo, embora útil, “em relação ao corpo humano, é uma coisa terrível. Ele fere, tortura, mata e destrói”. No contexto da vida futura, o fogo também é símbolo do inferno, um lugar de tormento físico. “O último símbolo que queremos usar, em conexão com a morte, é o fogo!”, argumenta.
Tradição do sepultamento ainda prevalece no Brasil
Embora a cremação tenha avançado no mundo, no Brasil o sepultamento segue como prática predominante. Segundo o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), apenas 8 % a 9 % dos óbitos resultam em cremação atualmente. A preferência pela cremação ainda é minoritária no país, influenciada por barreiras culturais, logísticas e religiosas.
Regiões como Porto Alegre apresentam uma aceitação maior, com índices próximos a 25 % das mortes, enquanto cidades do interior, como Ponta Grossa (PR), registram cerca de 2,33 % dos óbitos mensais sendo cremados, conforme levantamento da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Ainda que a infraestrutura de crematórios tenha crescido – com mais de 130 unidades registradas no país e cerca de 70 em funcionamento, segundo o Sincep – a resistência cultural é evidente. O sepultamento é visto por muitos cristãos como mais simbólico, íntimo e fiel à fé na ressurreição.
Cuidado pastoral e discernimento cristão
Apesar das ressalvas teológicas, tanto Piper quanto Nicodemus concordam que a escolha entre cremar ou sepultar é, antes de tudo, uma decisão pessoal. O que está em jogo, dizem, não é a salvação ou a fidelidade a Deus, mas a forma como o corpo é tratado e o tipo de testemunho que se deseja dar com essa decisão.
“Sepultado ou cremado, quando Cristo vier, haverá a ressurreição dos mortos”, afirma Nicodemus. Piper, por sua vez, reforça: “Defendo que o enterro centrado em Deus e enraizado no Evangelho é preferível à cremação. Preferível. Não ordenado”.
Apesar das ressalvas teológicas, tanto Piper quanto Nicodemus concordam que a escolha entre cremar ou sepultar é, antes de tudo, uma decisão pessoal. O que está em jogo, dizem, não é a salvação ou a fidelidade a Deus, mas a forma como o corpo é tratado e o tipo de testemunho que se deseja dar com essa decisão. Mais do que o método, importa a forma como tratamos o corpo com dignidade e fé – como testemunho silencioso da nossa esperança no Deus que vence a morte.
Comunhão.