{"id":95403,"date":"2018-08-24T15:41:05","date_gmt":"2018-08-24T18:41:05","guid":{"rendered":"http:\/\/portaldosilas.com.br\/?p=95403"},"modified":"2018-08-24T15:41:05","modified_gmt":"2018-08-24T18:41:05","slug":"a-doenca-que-destroi-os-rostos-das-criancas-mais-pobres-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldosilas.com.br\/news\/2018\/08\/24\/a-doenca-que-destroi-os-rostos-das-criancas-mais-pobres-do-mundo\/","title":{"rendered":"A doen\u00e7a que destr\u00f3i os rostos das crian\u00e7as mais pobres do mundo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_95404\" aria-describedby=\"caption-attachment-95404\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/portaldosilas.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/1535103236_416958_1535130096_noticia_normal_recorte1-1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-95404 size-medium\" src=\"http:\/\/portaldosilas.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/1535103236_416958_1535130096_noticia_normal_recorte1-1-640x359.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"359\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-95404\" class=\"wp-caption-text\">Uma garota com noma posa num centro da ONG Sentinelles em Zinder (N\u00edger) ISSOUF SANOGO\/AFP\/GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o esconda seu filho em casa\u201d, pede um folheto informativo da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/oms_organizacion_mundial_salud\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<\/a>\u00a0(OMS). Dirige-se \u00e0s fam\u00edlias de crian\u00e7as com noma, uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/enfermedades_olvidadas\/a\/\">doen\u00e7a negligenciada<\/a>, de origem desconhecida, que destr\u00f3i o rosto de suas v\u00edtimas em quest\u00e3o de dias. Noma, em grego, significa devorar. E isso \u00e9 o que ocorre, literalmente. Come\u00e7a como uma simples \u00falcera nas gengivas e rapidamente se torna uma gengivite necrosante e ulcerosa que perfura os m\u00fasculos, a pele e os ossos. Os pacientes desprendem um aroma f\u00e9tido. A OMS calcula que 140.000 crian\u00e7as contraem noma a cada ano. Se n\u00e3o receberem tratamento\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/antibioticos\">antibi\u00f3tico<\/a>, 90% morrem, muitos j\u00e1 sem nariz e com um buraco na cara que deixa a mand\u00edbula \u00e0 vista. Os que sobrevivem ficam desfigurados para o resto da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNormalmente tendem a ser afastados da vida cotidiana, sendo escondidos ou isolados com os animais. Porque, muitas vezes, as gangrenas s\u00e3o consideradas um sinal demon\u00edaco ou uma maldi\u00e7\u00e3o para a fam\u00edlia\u201d,\u00a0<a href=\"http:\/\/seq.es\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/moro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contava em 2015 uma equipe de pesquisadores<\/a>\u00a0espanh\u00f3is encabe\u00e7ada por Mar\u00eda Garc\u00eda Moro, especialista em doen\u00e7as tropicais da Universidade de Salamanca.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma nova pesquisa lan\u00e7a um pouco de luz sobre os fatores de risco desta peste n\u00e3o contagiosa. Uma equipe da ONG\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/medicos_sin_fronteras\">M\u00e9dicos Sem Fronteiras<\/a>\u00a0(MSF) analisou 74 casos atendidos no primeiro hospital do mundo dedicado ao noma, estabelecido em Sokoto, uma cidade majoritariamente mu\u00e7ulmana no noroeste da Nig\u00e9ria. Seus resultados certificam o evidente. O noma se espalha entre as crian\u00e7as das fam\u00edlias mais pobres das aldeias mais pobres dos pa\u00edses mais pobres. \u00c9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pobreza\">pobreza<\/a>\u00a0ao cubo. O principal fator de risco \u00e9 a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira pessoa a descrever a doen\u00e7a foi o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC3020568\/#R15\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">m\u00e9dico holand\u00eas Carolus Battus<\/a>, em 1595. O noma era comum na Europa naquela \u00e9poca, e assim permaneceu at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, quando a nutri\u00e7\u00e3o e o saneamento b\u00e1sico melhoraram sensivelmente. Alguns dos \u00faltimos casos foram registrados nos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas de Bergen-Belsen e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/auschwitz\">Auschwitz<\/a>. Na Espanha, uma mulher de 50 anos com HIV sofreu noma em 2010. Quando chegou a um hospital de Alicante, a doen\u00e7a j\u00e1 tinha devorado meia bochecha. Exceto por casos isolados como esses, a patologia se concentra nos pa\u00edses mais pobres do planeta, sobretudo no chamado \u201ccintur\u00e3o do noma\u201d, que percorre a \u00c1frica do Senegal \u00e0 Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSabe-se pouco sobre o noma, j\u00e1 que a maioria dos doentes vive em lugares desatendidos e de dif\u00edcil acesso\u201d, dizem os pesquisadores do MSF, dirigidos pela epidemiologista Elise Farley. \u201cOs pacientes que conseguem chegar a um posto de sa\u00fade s\u00e3o poucos e frequentemente j\u00e1 est\u00e3o muito doentes. A maioria dos afetados pelo noma morre duas semanas depois dos primeiros sintomas se n\u00e3o receber tratamento\u201d, detalha Farley. Na gangrena de seus rostos \u00e9 poss\u00edvel identificar uma multid\u00e3o de esp\u00e9cies de micr\u00f3bios, como a\u00a0<em>Fusobacterium necrophorum<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>Prevotella intermedia<\/em>, mas se desconhece o que desencadeia a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os especialistas t\u00eam diferentes hip\u00f3teses sobre a mesa. Os fatores de risco conhecidos incluem a pobreza, a desnutri\u00e7\u00e3o, a falta de higiene oral, a conviv\u00eancia com o gado e infec\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, especialmente o sarampo, segundo os estudos pioneiros de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dental.umaryland.edu\/micropath\/research\/dr-cyril-enwonwu-lab\/dr-enwonwu-biography\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cyril Enwonwu<\/a>, um m\u00e9dico nigeriano da Universidade de Maryland (EUA) empenhado h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas em encontrar o culpado do noma. No entender de Farley, esses fatores diversos se unem e criam \u201cuma tempestade perfeita\u201d para que o noma surja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo estudo do MSF culpa uma dieta pobre e mon\u00f3tona, com crian\u00e7as alimentadas todos os dias com as mesmas papas de milho. Os pesquisadores tamb\u00e9m apontaram o consumo do colostro \u2013 o primeiro leite que d\u00e1 uma m\u00e3e \u2013 como um fator protetor contra o noma. O trabalho, entretanto, n\u00e3o p\u00f4de estudar o potencial efeito do sarampo como desencadeante, j\u00e1 que n\u00e3o existe nada parecido com um hist\u00f3rico cl\u00ednico dos pacientes. Al\u00e9m disso, a cobertura de vacinas na regi\u00e3o \u00e9 t\u00e3o baixa que impede de comparar as crian\u00e7as com e sem noma. S\u00f3 2 dos 74 pacientes com noma (2,6%) haviam sido vacinados contra o sarampo. Nas crian\u00e7as sem noma escolhidas como refer\u00eancia nos mesmos povoados, a percentagem mal alcan\u00e7ava 6,8%. \u201c\u00c9 necess\u00e1ria mais pesquisa para compreender melhor a origem desta doen\u00e7a\u201d, pede a equipe de Elise Farley em seu estudo, publicado na\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosntds\/article?id=10.1371\/journal.pntd.0006631\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">revista especializada\u00a0<em>PLOS NTD<\/em><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A OMS recorda que o noma, \u00e0s vezes, \u00e9 chamado de \u201co rosto da pobreza\u201d. A an\u00e1lise da equipe de Mar\u00eda Garc\u00eda Moro corrobora: \u201cO noma pode ser considerado um indicador biol\u00f3gico de m\u00faltiplas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, inclu\u00eddo o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em alguns casos, por\u00e9m, h\u00e1 um final feliz ou, pelo menos, n\u00e3o t\u00e3o desventurado. Os cirurgi\u00f5es do MSF operaram o rosto de 243 sobreviventes do noma em 2017. \u201cAlguns pacientes disseram que depois da cirurgia foram bem acolhidos de volta \u00e0s suas comunidades e podem ir \u00e0 escola ou se casar\u201d, comemora Farley.<\/p>\n<p>El Pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o esconda seu filho em casa\u201d, pede um folheto informativo da\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade\u00a0(OMS). Dirige-se \u00e0s fam\u00edlias de crian\u00e7as com noma, uma\u00a0doen\u00e7a negligenciada, de origem desconhecida, que destr\u00f3i o rosto de suas v\u00edtimas em quest\u00e3o de dias. Noma, em grego, significa devorar. E isso \u00e9 o que ocorre, literalmente. 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