{"id":14503,"date":"2014-03-06T01:54:49","date_gmt":"2014-03-06T04:54:49","guid":{"rendered":"http:\/\/portaldosilas.com.br\/?p=14503"},"modified":"2014-03-06T01:54:49","modified_gmt":"2014-03-06T04:54:49","slug":"espancado-repetidas-vezes-para-aprender-a-andar-como-homem-garoto-de-8-anos-e-morto-pelo-pai-no-rj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldosilas.com.br\/news\/2014\/03\/06\/espancado-repetidas-vezes-para-aprender-a-andar-como-homem-garoto-de-8-anos-e-morto-pelo-pai-no-rj\/","title":{"rendered":"Espancado repetidas vezes para aprender a \u2018andar como homem\u2019, garoto de 8 anos \u00e9 morto pelo pai no RJ"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_14504\" aria-describedby=\"caption-attachment-14504\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14504 \" alt=\"alextriste\" src=\"http:\/\/portaldosilas.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/alextriste.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14504\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #ffffff;\"><em><strong>Alex beija a barriga da m\u00e3e, Digna, que foi amea\u00e7ada por Conselho Tutelar por n\u00e3o matricular menino na escola (foto: Reprodu\u00e7\u00e3o \/ Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/em><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>t\u00edtulo original:\u00a0Menino teve f\u00edgado dilacerado pelo pai, que n\u00e3o admitia que crian\u00e7a gostasse de lavar lou\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Maria Elisa Alves, em\u00a0<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/menino-teve-figado-dilacerado-pelo-pai-que-nao-admitia-que-crianca-gostasse-de-lavar-louca-11785342\">O Globo<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RIO \u2013 A trag\u00e9dia come\u00e7ou a ser delineada aos poucos. Em Mossor\u00f3, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, Digna Medeiros, uma jovem de 29 anos que vive da mesada de dois sal\u00e1rios-m\u00ednimos dada pelo pai, come\u00e7ou a ser pressionada pelo Conselho Tutelar porque n\u00e3o mandava seu filho Alex, um garoto franzino, que n\u00e3o aparentava seus 8 anos, \u00e0 escola. Amea\u00e7ada de perder a guarda, mandou o menino para o Rio para que ele morasse com o pai. O encontro da crian\u00e7a t\u00edmida com o pai desempregado, que j\u00e1 cumprira pena por tr\u00e1fico de drogas, n\u00e3o poderia ter sido mais desastroso. Horrorizado porque Alex gostava de dan\u00e7a do ventre e de lavar lou\u00e7a, Alex Andr\u00e9 passou a aplicar o que chamou de \u201ccorretivos\u201d. Surrava o filho repetidas vezes para \u201censin\u00e1-lo a andar como homem\u201d. No \u00faltimo dia 17, iniciou outra sess\u00e3o de espancamento. Duas horas depois, Alex foi levado para um posto de sa\u00fade. Parecia desmaiado, com os olhos grandes, de c\u00edlios longos, entreabertos. Mas n\u00e3o havia mais o que fazer. Estava morto.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As sucessivas pancadas do pai, provocadas porque Alex n\u00e3o queria cortar o cabelo, dilaceraram o f\u00edgado do garotinho. Uma hemorragia interna se seguiu, levando o menino, que tamb\u00e9m gostava de forr\u00f3 e de brincar de carrinho, a \u00f3bito. Apesar de a madrasta, Gisele Soares, que socorreu o enteado, afirmar que ele tinha desmaiado de repente, os m\u00e9dicos da UPA de Vila Kennedy desconfiaram logo de viol\u00eancia dom\u00e9stica. O corpo de Alex, coberto de hematomas, era um mapa dos horrores que ele vinha passando. O laudo do Instituto M\u00e9dico Legal descreve em muitas linhas todo o sofrimento: a crian\u00e7a tinha escoria\u00e7\u00f5es nos joelhos, cotovelos, perto do ouvido esquerdo, no t\u00f3rax, na regi\u00e3o cervical; apresentava tamb\u00e9m equimoses na face, no t\u00f3rax, no superc\u00edlio direito, no deltoide, punho esquerdo, bra\u00e7o e antebra\u00e7os direitos, al\u00e9m de edemas no punho direito e na coxa direita. A legista \u00c1urea Maria Tavares Torres tamb\u00e9m atestou que o corpo magricelo apresentava sinais de desnutri\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O posto de sa\u00fade chamou o Conselho Tutelar de Bangu, provid\u00eancia que nenhum vizinho do menino havia tomado. Alex morava com o pai, a madrasta e outras cinco crian\u00e7as num casebre na Vila Kennedy, uma \u00e1rea sem UPP, onde tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es rivais travam uma guerra. N\u00e3o se sabe se a lei de sil\u00eancio, que costuma imperar onde traficantes atuam, contaminou quem vivia nas casas pr\u00f3ximas, ou se ningu\u00e9m realmente sabia do que se passava no im\u00f3vel de tr\u00eas c\u00f4modos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; Eu nunca escutei nada. Eu mal via o menino. Pensei at\u00e9 que ele j\u00e1 tivesse voltado para o Nordeste. S\u00f3 os outros filhos sa\u00edam de casa. Acho que ele vivia em c\u00e1rcere privado \u2013 diz a vizinha Wandina Ribeiro.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No depoimento que o pai, apelidado pelos vizinhos de \u201cmonstro de Bangu\u201d, deu \u00e0 pol\u00edcia, h\u00e1 uma pista de que o menininho podia, de fato, sofrer os maus-tratos calado: \u201cEnquanto batia, mais irritava o fato de ele n\u00e3o chorar, o que fazia o depoente crer que a li\u00e7\u00e3o que aplicava n\u00e3o estava sendo suficiente e que, por isso, batia mais e mais\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um dos conselheiros tutelares de Bangu, Rodrigo Coelho, diz que vai pedir \u00e0 pol\u00edcia que investigue se Alex vivia em c\u00e1rcere privado. Se os vizinhos dizem n\u00e3o saber de nada, no col\u00e9gio tampouco desconfiavam do que Alex passava em casa. Matriculado em maio de 2013 na Escola Municipal Coronel Jos\u00e9 Gomes Moreira, tamb\u00e9m na Vila Kennedy, o garoto era considerado calmo, obediente e inteligente. Teve \u00f3timo desempenho no ano passado: nota 88 no segundo bimestre, primeiro que cursou no local, nota 100 no terceiro, e 90 no \u00faltimo. Este ano, n\u00e3o apareceu, mas os funcion\u00e1rios n\u00e3o se preocuparam: em janeiro, Alex Andr\u00e9 fora \u00e0 unidade pedir a documenta\u00e7\u00e3o escolar, dizendo que o filho voltaria para Mossor\u00f3.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O menino afetuoso, que se dava bem com os colegas, \u00e9 descrito de forma bem diversa pelo pai. No depoimento \u00e0 pol\u00edcia, Alex Andr\u00e9, que teve a pris\u00e3o tempor\u00e1ria decretada no \u00faltimo dia 19 pela ju\u00edza Nathalia Magluta e foi levado para o Complexo de Gericin\u00f3, disse que o filho \u201cera de peitar\u201d, \u201cpartia para dentro de voc\u00ea\u201d. Segundo policiais que investigam o caso, a frieza de Alex Andr\u00e9 impressionou quem assistiu ao depoimento. Ele negou ter tido a inten\u00e7\u00e3o de matar, mas insistia que o filho tinha que ser \u201chomem\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Homofobia j\u00e1 tinha feito assassino rejeitar outra crian\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ningu\u00e9m sabe dizer \u2013 como se isso tivesse alguma relev\u00e2ncia \u2013 se Alex era realmente afeminado. Mas n\u00e3o faltam relatos de como o pai do menino era homof\u00f3bico. Sobrinha do assassino, Ingrid Moraes diz que Alex Andr\u00e9 era \u201ccismado com essa coisa de homossexual\u201d e rejeitava o filho mais velho, de 12 anos, por ach\u00e1-lo pouco m\u00e1sculo. O menino, que morava numa rua pr\u00f3xima com a m\u00e3e, conta que a rela\u00e7\u00e3o com o pai, que ele mal via, era cheia de segredos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; Eu cuido da casa, mas ele nem sabia. N\u00e3o acho nada demais, mas ele n\u00e3o aceitava muita coisa \u2014 diz o garoto, que escapou por pouco de ser surrado. \u2013 Uma vez, ele tentou, mas meu tio me defendeu.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se poupou o filho mais velho, o mesmo n\u00e3o pode se dizer de outros parentes. Ingrid conta que j\u00e1 apanhou de Alex Andr\u00e9, que tamb\u00e9m atacou a pr\u00f3pria m\u00e3e<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se, em fam\u00edlia, Alex Andr\u00e9 resolvia muita coisa no bra\u00e7o, na rua ele fazia valer sua condena\u00e7\u00e3o por tr\u00e1fico de drogas (cumpriu pena por quase quatro anos) para amedrontar a vizinhan\u00e7a. Sem emprego fixo e vivendo de bicos, costumava consumir drogas no meio da rua e, se algu\u00e9m reclamasse, dizia para n\u00e3o se meterem com ele.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gisele, a mulher de Alex Andr\u00e9, n\u00e3o tem sido mais vista na Vila Kennedy. Ela abandonou o lar no dia seguinte \u00e0 morte do enteado, quando vizinhos amea\u00e7aram linch\u00e1-la e atear fogo ao im\u00f3vel. \u00c0 pol\u00edcia, ela confirmou as palavras do marido e disse ser contr\u00e1ria aos castigos f\u00edsicos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Digna Medeiros, a m\u00e3e de Alex, garante que Alex Andr\u00e9 nunca foi violento com ela:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; Se soubesse, n\u00e3o teria deixado o Alex vir para o Rio. Ele era minha vida, nunca pensei que isso pudesse acontecer, meu Deus. Preferia que tivesse sido comigo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Perguntada se o filho nunca havia se queixado do pai, Digna contou que s\u00f3 falara duas vezes com ele nos \u00faltimos nove meses.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; Eu liguei no dia que ele foi para o Rio com a aeromo\u00e7a e falei tamb\u00e9m quatro dias depois. Ele disse que estava tudo bem. Depois, n\u00e3o consegui mais falar com o celular do pai dele. Entrei em contato com o irm\u00e3o do Alex Andr\u00e9 pelo Facebook e ele disse que estava tudo bem. Confiei, afinal ele era tio do meu filho \u2013 diz.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Digna resolveu acompanhar de perto o desenrolar do caso. Deixou o beb\u00ea de 8 meses com amigos em Mossor\u00f3. O filho de 3 anos mora com os av\u00f3s paternos. O mais velho, de 15, que ela n\u00e3o v\u00ea desde nen\u00e9m, ela quer encontrar no Rio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; Tive ele muito nova, com 14 anos, n\u00e3o tinha a cabe\u00e7a que tenho hoje. Deixei ele com o pai, l\u00e1 em Hon\u00f3rio Gurgel \u2013 diz Digna.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Digna e o conselheiro tutelar foram os \u00fanicos que participaram do enterro de Alex. Mas a cena do menino no caix\u00e3o branco, de blusinha listrada, ainda marcado pela viol\u00eancia, foi t\u00e3o forte que levou pessoas de quatro vel\u00f3rios que eram realizados ao lado a sair de suas capelas para abra\u00e7ar a m\u00e3e.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>t\u00edtulo original:\u00a0Menino teve f\u00edgado dilacerado pelo pai, que n\u00e3o admitia que crian\u00e7a gostasse de lavar lou\u00e7a Maria Elisa Alves, em\u00a0O Globo RIO \u2013 A trag\u00e9dia come\u00e7ou a ser delineada aos poucos. 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